E um dia se falaram. Trocaram aquelas impressões enquanto o sujeito que sentava na pedra catou dizeres no fundo dos olhos e delatou os diálogos, os olhares, as ausências, as concepções e os partos. Ele é da pedra, ou a pedra é ele, que será, por que dali não saia? Estranharam, não quiseram dizer de imediato. Quando foi que se originou não percebemos, provavelmente o narrador foi à casinha e não pôde anotar esse pedaço de mau caminho da História. Deu que se flagraram alisando os braços do vizinho: eu também tenho, veja só. Familiarizados com o toque, todos (quase) parecidos, pretenderam cismar que deveriam ter a mesma cobertura. O sujeito da pedra prosseguiu mediante o reconhecimento de todos, porque sim, disse das duas pernas e dos dois braços, da boca e das orelhas, não era só a pele (tinha nome e era pele), não era também a superfície, tinha o suor, os excrementos e a saliva. Volveu às palavras do princípio para encerrar com as mesmas, deu testemunho de fogo e sem desembaraço, explanou o que escondiam todas as manhãs por debaixo dos travesseiros e a sujeira, dita assim, limpou-se um bocado. Bastou a sua primeira pedra jogada ao longe, logo cuspiram umas tantas outras, as moças se levantaram saias e os rapazes não se preocuparam em mostrar inocência. O que se seguiu se deu por uma exaustão da pretensão de se velar por aquilo que não precisava ser velado e explodiram que tinham aquilo, aquilo mesmo que o sujeito da pedra relatou, que os arrastara até ali sem dar tempo de entendimento. O sujeito da pedra chamou de amor, ao que uns montes não ouviram, outros ouviram mal e o resto ouviu, mas esqueceu. Estavam ocupados em constatar os peidos e os arrotos em comum (faziam das mesmas coisas), mas não havia um que não tivesse pressentido, afinal.
[ninguém deixa de saber do amor pelo menos uma vez por semana. ninguém deixa de ignorá-lo pelo menos uma vez por semana]
04/2006
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