sábado, 8 de dezembro de 2007

lembro daquilo de marcar a retina com um arco-íris, tinha tanta tolice, meu riso que não se percebia. corria até cair e subia em árvore para conversar sem respostas.

a luz não me perpassa e ainda há tanta coisa bonita, os meus sonhos de balanço, o primitivo, os pés na terra, catando o áspero pra machucar os dedos. continuo imaginando camas que voam e espero, procuro a primeira estrela no céu e carrego uma esperança tão ébria de ver luzes e cores que mal chego a acreditar nos limites, na dor em nódoa e nos meus olhos: tenho dois, um dissimula e o outro não esconde, é úmido.
a solução é andar com uma música altíssima no ouvido.

pra ver se eu fico surda logo.

domingo, 2 de dezembro de 2007

não há nada melhor que alcançar a linha do próprio limite e resolver em consciência abrigar-se em si. que não nos alcance. o abandono. os olhos. a falsa palavra. os pés sujos. o corpo estirado no chão.

ir e voltar. sentir o rasgo se fechar. fascinar-se com a renovação. esperar o crescimento. não ter medo se doer, saber que tudo dói e tudo se acaba. tudo se acaba.
um susto, o descuido. olhos imensos para não crer. luzes incompreensíveis. dissimulação num rodopio. horas que matam a mentira. a morte da mentira. areia de sol lavada, os pés que desejam passar.

você desconhece como apago de mim o que já não me dá mais margem pro sonho.

02/2007
sentei, deitei, caí. não sei se de tropeço, de empurrão, não me parece que estava em outro lugar há anos. não existem pernas que me sustentem no ar: elas são movidas a idéias, dispersas agora. não irei catá-las, não provocarei um mínimo de esforço para mover a ponta do dedo, dobrá-lo e nele enroscar um pensamento. ficarei bem, sentindo o bater das asas dos meus fragmentos. aos poucos, não sobrará nenhum.

10/2006
À noite, rói com os olhos, ocioso, as jóias da família, se é que assim se poderia dizer da, entre outras coisas vetustas, meia dúzia de mecanismos enegrecidos pelo mesmo material que fazia bater os pêndulos em tempos de antes; pois um dia ergueu-se a voz que disse "bate" e a ela obedeceu-se sem mais, e daí por diante assim foi, visto que o desejo de que se relacione, ainda que dogmaticamente, nome à função é constante em todas as almas, sejam de plástico, ferro ou similar. Traz pra junto de si as pérolas que não se sabe falsas, porque bem poderiam ser verdadeiras. Passa-as na barriga em pêlo, atestando a qualidade da superfície. Abre o leque de terras galegas, imagina-se junto aos desenhos sobejos que ali, em manhã fria, foram depositados por mãos que pensam "quanto este dará", só que em idioma distante. Enquanto reconta as peças fala sozinho, porque não há lei que se diga que falar só seja feio ou imoral. Pelo contrário, homens alguns, não os de lei, mas comuns, apregoam que este exercício faz crescer e produzir, tanto para o bem quanto para o mal: isso é caso de decidir quem o manipula ou é manipulado. Diante de sua própria voz, pára. Teve medo: era ali a sua voz e não outra. Que seria dele assim, perder-se-ia? Fechou o baú às pressas diante do relance de pressentir-se louco. Louco não o dirão, disse e, assim dito, guardou a caixa na prateleira mais próxima do teto, para dali uma noite a retirar novamente, desta vez com mais cautela.

05/2006
porque as pessoas continuam momentâneas. força grande estranha. é tão solitário como ver espíritos.ainda a neblina da escada a subir, numa rua. a iminência da chegada de Alguém. o vento toca tambor, descobrindo. e essa maldita obrigatoriedade da tentativa de adentrar. em janelas. em cavidades. em busca do quarto rosa, concha. a lonjura dos amados, tão teimosos com pequenas coisas mastigadas, aliviados pelo fim, pesarosos. esse cheiro de torrada moída com mel, sabendo a passado.

amar tanto pra morrer de indigestão.

04/2006
Achou-a tão displicente, que talvez tivesse ousado cair assim do ventre e nascer teria sido um mero descuido, como quem fecha a mão para sufocar um mosquito, o esquece e libera-o para o ar. Se pudesse dizer que eram as marcas, esqueceria dos cotovelos ou do jeito de ser descalça. A atmosfera se punha tão noutros ares que respirar seria sofrido e sem grandes motivos; o que era palpável bem poderia ser ilusão que, tocada, seria desfeita em dor tão larga e silenciosa como todas as dores queridas: a felicidade é tão frágil e requer mimos risíveis, que antes parir um macho que aceita que não lhe cai bem o choro. Incomodou-se por fim de tal modo que, depois que se certificara que dali o inesperado não mais brotaria, inventou gestos violentos, sentou-se, levantou, manuseou-se, foi até à cozinha e voltou, um queijo na mão. Antes de sair, catou os dentes que se espalharam e riscou o chão donde havia sangue, como quem quer descobrir se era igual aos outros ou se desaparecia após 3 segundos.

04/2006
E um dia se falaram. Trocaram aquelas impressões enquanto o sujeito que sentava na pedra catou dizeres no fundo dos olhos e delatou os diálogos, os olhares, as ausências, as concepções e os partos. Ele é da pedra, ou a pedra é ele, que será, por que dali não saia? Estranharam, não quiseram dizer de imediato. Quando foi que se originou não percebemos, provavelmente o narrador foi à casinha e não pôde anotar esse pedaço de mau caminho da História. Deu que se flagraram alisando os braços do vizinho: eu também tenho, veja só. Familiarizados com o toque, todos (quase) parecidos, pretenderam cismar que deveriam ter a mesma cobertura. O sujeito da pedra prosseguiu mediante o reconhecimento de todos, porque sim, disse das duas pernas e dos dois braços, da boca e das orelhas, não era só a pele (tinha nome e era pele), não era também a superfície, tinha o suor, os excrementos e a saliva. Volveu às palavras do princípio para encerrar com as mesmas, deu testemunho de fogo e sem desembaraço, explanou o que escondiam todas as manhãs por debaixo dos travesseiros e a sujeira, dita assim, limpou-se um bocado. Bastou a sua primeira pedra jogada ao longe, logo cuspiram umas tantas outras, as moças se levantaram saias e os rapazes não se preocuparam em mostrar inocência. O que se seguiu se deu por uma exaustão da pretensão de se velar por aquilo que não precisava ser velado e explodiram que tinham aquilo, aquilo mesmo que o sujeito da pedra relatou, que os arrastara até ali sem dar tempo de entendimento. O sujeito da pedra chamou de amor, ao que uns montes não ouviram, outros ouviram mal e o resto ouviu, mas esqueceu. Estavam ocupados em constatar os peidos e os arrotos em comum (faziam das mesmas coisas), mas não havia um que não tivesse pressentido, afinal.

[ninguém deixa de saber do amor pelo menos uma vez por semana. ninguém deixa de ignorá-lo pelo menos uma vez por semana]

04/2006
Tantos sinais de ordens nababescas disparados ao peito e uma pequena chance de tudo ser mentirinha; sendo um passo, a caída. sendo expressão, a delatora. Tem essa linha silente no fim da vista, o pisoteio na calçada, rascando, ao fervilhar de mil bichinhos estomacais. Acresce ao esquecimento as invenções vespertinas e, de todo modo, há tanta novidade passada... A trilha deixada seria irreconhecível e inútil seria traçar no branco essa biografia que cá se desenha ou que almeja deixar as cores elementares. Persistem os cheiros, os acréscimos de última morte, os braços suspensos como que atirados ao ar pelo invisível, apontando. É tão leve, logra tocar a ver se desmancha, água ou vapor. Mas não é externo, eis a voz. E, de leve, a interrogação dá a mão. Desenho círculos e penso se os conheço. Trago a covardia de todo dia e sento calma, calma. Eu me vou, eu me fito. É o presente, saí dali. Abracei-me e me escrevi, cada célula de dor reaquecida. Depois do reconhecimento, o sorriso.

03/2006
Um balão acima indica, obviamente, o ajuntamento de sensações a serem exteriorizadas. A despeito de perfeitas estruturações, o agrupamento de palavras angariadas perturba-se a si mesmo. Andam tóxicas, combinam variações, prometem rótulos sem conseguirem acobertar seus próprios segredos.Um balão acima que ainda não deu explicações é perturbador. O que faz aqui? Qual o fim de crescer sem a ventura de explodir? Está projetando malícias, engasgando. Não tem vontades, atropela-se no ato de existir.Um balão acima se entope, tosse. Perdão, perdão. Em contato com paredes e tetos, adere, empurra. Perdão. Engasgos. Suor. É maior que o cômodo, dá licença, licença. Denso, não se apercebe: incomunicabilidade mórbida.

03/2006
Transitas em meu lado mutilado, visionário. Conjuras um modo de me salvar, me tomas por paranóica, signo touro, ascendência em sagitário. Eu confabulo, te espero, mendaz. Peço por um rio, erosivo, descarto movimentos pendulares. Catas-me a um só tempo, em cinco mãos, assertivo em águas confluentes. Abro-me, mil - folhas, te suporto, a planejar um céu ástreo. Que tenha nossos nomes escorregadios, atravessados num símbolo-eterno. Que urre em galhardia por todos os segundos imóveis, em canais telepáticos, a decifrar sua impassibilidade, seu tonel de profusões internas. Vê essa estética recriada a exalar cheiro de porra, amalgamando o princípio ao fim. Estou a falar com o vento, amor. Estou falando pra ti, de nós. A escrever porque cega.

03/2006
ela é uma bonequinha cheia de modorra, incrédula, decepcionada. ouve as pancadas batendo duro e o rosto permanece de esfinge, cortando mortadela pra mãe que não levanta da cama. se trouxesse vivo o escudo da lembrança, se tranquilamente repousasse na superfície revestimentos de madeira, lustrada, talhada em golpes de tontura, reais, presentes porque seus significados inda inelutáveis, teria o grito permanecido suspenso, a revolta ainda mobilizada. toda a verdade não se mostraria hoje como essa historieta tosca. a mágoa seria então benéfica, transformadora. agora, é o silêncio. irretorquível, inútil. ela é de uma meiguice forjada, agradável e desesperadora. opções.

02/2006
Todo o silêncio que se borda. O frio da cama que vira montanha, pontas de gelo aparando livros. Entende que quando parei de correr, estava aqui? Relendo poemas, fazendo força, eu vou acreditar, vou. As pernas ainda servem. Do lixo, o resto; e eu disse que sairia desse alto mais uma vez, tateando um caminho que não esteja entupido de neblina.Os sonhos diagramados são inabaláveis, mas sussurram tanta indecência... Especulações com os dedos e pronto, lá está você, mortalmente ferida porque exposta. Recolhem-se os jorros antes desperdiçados, esteja quieta. Muito quieta ao almoçar, porque lá vem antibiótico e há que se ter algum tipo de amor.

02/2006
é ainda considerado buscar um papel colorido, ser dor larga a ver se ao menos se lateja, alguma força que vibra em círculos. que seja parco o entendimento acerca dos deslumbramentos, que não se entenda do sublime e da inspiração. acima de tudo, o desconhecido.

02/2006
Perquirir o dedo doce, leite em pó, fogo, sabendo a tristeza, muito mesureira, ameninando-se por dentro como medida de contenção, adulterando-se externamente para um equilíbrio qualquer. Sabe, dessas coisas triviais, de ser barro suspenso que ainda não secou, não crendo ainda em Báratro e em pecados, capitais ou subseqüentes. Sobretudo sem trazer vincos irrecuperáveis de cepticismo – olhos úmidos, dizem. Ainda assim um vaso vazio, beirando o vento ou outras quebras de linha. Uma basbaque, sem praticidade ou desenvoltura. Uma voz, que ainda fosse um suspiro, e já teria o que processar, máscaras para reerguer, estruturações mais aprimoradas de raciocínio. Não há. Um canal, um código. Não. Sem retenções. Retorna, verdadeiramente de si para si, com cheiro de ar.

01/2006
o dedo doce, uma bolinha moldada nas mãos. pensando algo assim: se a bolinha se desmanchasse e fosse absorvida pra passear pela corrente, poderia se metamorfosear em doçura pura? e alcançar em cheio o coração, dizendo coisas que a ternura jamais poderia vislumbrar?os acordes deletérios rasgam, tinindo metais. impulsionam chispas que não têm tempo de serem codificadas: olhos arregalados numa incompreensão infinita.quem sabe um pote inteiro de açúcar.

09/2006
... que tinha cheiro de infância: deu voltas pelo ouvido, mas o que é. Tornou-se entanguido, é como dizer "eu não te alcanço", permanecendo os olhos dubitativos, "não entendo de mulher". E se remediasse, "não é mulher, é céu", os olhos dessa feita relembrariam: "existia um céu, era tarde, as cigarras cantavam e o júbilo era pôr as cascas nos cabelos das moças". Mas se fosse relato de reiterar uma vida de si para si, que saída seria, "toma, me dou". Pensaria que era salacidade ou pureza? E se não ocorre um pensamento, consentindo? "Sim, se dá". Os olhos embebidos da novidade arriscam um novo lume, nasceram agora (antes dormiam ou abriam retesados, para lá e para cá, uma mosca presa ao copo). "É um gosto ressabido a saliva, deluso". Sem subterfúgios, não são flores, têm carne e movimento de quem não balança ao ar. Não fosse a escuridão e o silêncio, jamais se encontrariam.

11/2005