domingo, 2 de dezembro de 2007

Achou-a tão displicente, que talvez tivesse ousado cair assim do ventre e nascer teria sido um mero descuido, como quem fecha a mão para sufocar um mosquito, o esquece e libera-o para o ar. Se pudesse dizer que eram as marcas, esqueceria dos cotovelos ou do jeito de ser descalça. A atmosfera se punha tão noutros ares que respirar seria sofrido e sem grandes motivos; o que era palpável bem poderia ser ilusão que, tocada, seria desfeita em dor tão larga e silenciosa como todas as dores queridas: a felicidade é tão frágil e requer mimos risíveis, que antes parir um macho que aceita que não lhe cai bem o choro. Incomodou-se por fim de tal modo que, depois que se certificara que dali o inesperado não mais brotaria, inventou gestos violentos, sentou-se, levantou, manuseou-se, foi até à cozinha e voltou, um queijo na mão. Antes de sair, catou os dentes que se espalharam e riscou o chão donde havia sangue, como quem quer descobrir se era igual aos outros ou se desaparecia após 3 segundos.

04/2006